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06. Documentos Alexandre Vieira
Os “Documentos Alexandre Vieira” existentes no fundo de Alberto Pedroso foram por este guardados na sequência de uma acção de recuperação de parte do espólio de Alexandre Vieira, após o seu falecimento, levada a cabo por Pedroso em conjunto com César de Oliveira. Ambos tiveram acesso à habitação arrendada onde Vieira viveu várias décadas, pouco antes da família fazer a entrega da casa ao seu proprietário, recolhendo inúmeros documentos que ali encontraram (cf. docs. 09772.156 e 09772.155).
Vasta correspondência, apontamentos e manuscritos de preparação de trabalhos, diversos recortes de imprensa que testemunham a faceta jornalística de Alexandre Vieira, diversa propaganda de carácter operário ou político, documentos que espelham a sua vida particular e redes de sociabilidade, encontram-se organizados nesta secção. Procurou-se, face à documentação existente, uma reconstituição, ainda que apenas aproximada, das actividades em que Vieira participou e que o levaram a produzir e reunir diversos materiais.
Note-se, contudo, que Alberto Pedroso fez larga utilização do espólio de Alexandre Vieira para os seus estudos e investigação particular, deixando a sua marca pessoal nos documentos do próprio Vieira, quer em apontamentos que neles foi fazendo, quer na organização que lhes deu. Embora parte da documentação de Vieira tenha sido mantida unida por Alberto Pedroso é possível que muitos outros materiais, designadamente títulos de imprensa e propaganda operária e política, que existem no fundo de Pedroso, tenham originalmente pertencido a Alexandre Vieira, tendo-se perdido, entretanto, esse elo de ligação.
Deste modo, os documentos contidos nesta secção dizem respeito essencialmente à parte da documentação de Alexandre Vieira que foi mantida agrupada por Alberto Pedroso. Alguns documentos dispersos noutras pastas, cujo conteúdo indicia terem originalmente sido provenientes do espólio de Vieira, foram aqui reunidos digitalmente, mantendo-se a sua localização física com os materiais junto dos quais se encontraram. Por outro lado, os documentos produzidos por Alberto Pedroso acerca de Alexandre Vieira, incluindo cópias de outros com ele relacionados, foram digitalmente agregados em série própria do fundo de A. Pedroso na secção “01. Investigação e estudos históricos”.
A documentação aqui reunida não representa a totalidade do arquivo de Alexandre Vieira, pois, para além da recolha feita por Alberto Pedroso e César Oliveira, nada mais se sabe sobre o destino que lhe foi dado. Deve, assim, ser complementada com a consulta de fundos e coleções arquivísticas existentes noutras instituições. Por exemplo, no Arquivo Histórico-Social do Instituto de Ciências Sociais existe, na Coleção César de Oliveira, um conjunto de correspondência, provas e recortes de imprensa da autoria de Alexandre Vieira. Do mesmo modo, existe um espólio de Alexandre Vieira no Arquivo Histórico-Social, integrado no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional de Portugal, composto por correspondência, recortes, fotografias e outros documentos. Outros fundos e coleções existentes em ambas estas instituições possuem também documentação produzida ou reunida por outras personalidades com quem Vieira privou ao longo da sua vida, sendo possível que partes do espólio tenham ido parar às mãos de outros dos seus amigos.

Nota biográfica/Institucional
Alexandre Fernandes Vieira (1880-1973) foi um operário tipográfico, jornalista e destacado militante dos movimentos sindicais, em particular durante o período da I República e da Ditadura Militar.
Nasceu em Vila da Feira, Aveiro, sendo filho de José Fernandes Vieira e Custódia da Conceição Vieira. Casou-se por três vezes. Sofia de Sousa e Maria Jorge Vieira foram as duas primeiras esposas, ambas falecidas prematuramente. O seu terceiro casamento, em 1954, foi com Capitolina Rosa Vieira que faleceu em 1972.
Iniciou-se ainda jovem nas lides das artes gráficas, travando conhecimento com as lutas operárias do seu tempo e as correntes de pensamento que inspiravam as movimentações de carácter social e sindical, incluindo não só as do socialismo, mas também as ligadas ao sindicalismo revolucionário e ao anarquismo. No meio libertário privou com figuras, com quem manteria amizade ao longo de vários anos, como Emílio Costa, Pinto Quartin, Campos Lima, Neno Vasco, Adolfo Lima, entre outros.
Quando se fundou a Federação dos Trabalhadores do Livro e do Jornal, desempenhou papel saliente primeiro como delegado da Liga das Artes Gráficas de Viana do Castelo, e depois como tesoureiro. Em 1903 filiou-se na Associação dos Compositores Tipográficos.
Fixando-se definitivamente em Lisboa como tipógrafo empenhou-se nas lutas do movimento sindicalista português. Foi um dos fundadores, em 1908, do jornal operário A Greve. Em 1910, após a implantação da República, colaborou no semanário O Sindicalista, que dirigiu até ao seu fim. Em 1919 ajudou a fundar o jornal A Batalha, órgão que dirigiu durante alguns anos.
Alexandre Vieira teve notável intervenção nas iniciativas ligadas à organização da classe operária. Participou em diferentes congressos operários, nomeadamente ligados ao sector gráfico. Tomou parte na fundação da União Operária Nacional, em 1914, em Tomar, chegando a ser seu secretário-geral. Colaborou igualmente com a Confederação Geral do Trabalho, que sucedeu à UON em 1919, e da qual o jornal A Batalha foi porta-voz.
Em consequência da acção que Alexandre Vieira desempenhou no movimento sindicalista português e na defesa dos direitos dos trabalhadores, sofreu várias prisões, quer durante o período republicano, quer durante a Ditadura Militar.
Em 1927, estando a trabalhar na tipografia da Biblioteca Nacional, para onde entrara por influência de Jaime Cortesão, teve um mediático conflito com o seu novo director, Fidelino de Figueiredo, sendo preso e condenado a uma multa. Após a sua saída da prisão, foi chefiar a tipografia da revista Seara Nova, dirigida por Câmara Reis.
Em Março de 1928 partiu para Moscovo para participar no IV Congresso da Internacional Sindical Vermelha, como delegado convidado em representação da Associação dos Compositores Tipográficos de Lisboa. No regresso foi forçado a permanecer alguns anos em Paris, para não ser preso em Portugal. Em França, colaborou com as Ediciones Europa-America, como revisor tipográfico para as línguas espanhola e francesa.
Depois de reentrar em Portugal, em 1932, voltou a dedicar-se a tarefas relacionadas com as artes gráficas, tornando-se os seus trabalhos como revisor bastante apreciados. Colaborou com a Grande Enciclopédica Portuguesa e Brasileira e noutros órgãos de imprensa como a Seara Nova, República, A Voz do Operário ou A Terra Minhota. Escreveu também alguns livros sobre temas relacionados com o movimento sindical e a actividade tipográfica, como sejam: “Em volta da minha profissão” (1950), “Como se corrigem provas Tipográficas” (1951), “Figuras Gradas do Movimento Social Português” (1959), “No domínio das artes gráficas” (1960), “Delegacia a um congresso sindical” (1960), ), “Para a história do Sindicalismo em Portugal” (1970).
Em 1925 publicara no Almanaque do jornal A Batalha o estudo “Subsídios para a História do Movimento Sindicalista em Portugal. De 1908 a 1919”, que foi reeditado em livro, postumamente, em 1977.
Faleceu em Dezembro de 1973.