Cota: 00168.089Assunto: Carta no terceiro aniversário do 25 de Abril de 1974, com reflexões e críticas ao processo de descolonização e à forma como se está a lidar com os refugiados das ex-colónias. O remetente escreve no aniversário de 3 anos do 25 de Abril e confessa que ao ouvir os festejos, chorou de desilusão, pois acredita que nada do que foi prometido foi cumprido. É refugiado de Angola e chama a atenção para as vítimas da descolonização. Afirma que existem milhares de pessoas vindas des ex-colónias e que continuam a chegar, sem casa, emprego, pão, com subsídios do IARN em atraso ou nunca receberam tal subsídio. Acusa o Samora Machel de ser racista por ter expulso todos aqueles que optaram pela nacionalidade portuguesa. Denuncia o facto do exército português, ter sido enviado para Moçambique, Angola e Guiné, cego pela ideologia gonçalvista, e não ter feito nada para proteger os portugueses e os seus bens dos horrores levados a cabo pelo povo armado. Afirma que o Exercito Português não defendeu os acordos firmados em Lusaka e no Alvor. Descreve situações extremas de violência e assassinato de civis, durante o processo de descolonização. Acusa Mário Soares de ser responsável pela forma como foi feita a descolonização, pois entendeu que tinha de negociar com os movimentos de libertação, acreditando que estes queriam a libertação do seu povo, e não se preocupou em visitar esses territórios e em consultar todos os habitantes sobre o processo. Defende que os movimentos de libertação em Angola não querem a libertação do povo mas sim satisfazer os seus próprios interesses e os interesses das potências internacionais que apoiam cada um destes movimentos. Afirma que os refugiados e os militares foram levados a ir para as ex-colónias, pelas ideologias fascistas, para construir o " Portugal Maior" e agora voltaram à pátria sem nada e vivem em condições miseráveis. Afirma que essas mesmas pessoas que convenceram os portugueses a construirem as ex-colónias, são agora líderes políticos e militares que se dizem progressistas e não ajudam os desalojados. Explica que os retornados são vistos como malandros, tendo vindo piorar a situação económica do país, mas afirma que isso é mentira, que estas pessoas são pessoas de trabalho, que em poucas décadas ajudaram a construir e a tornar países como Angola e Moçambique em potências económicas. Por isso seria muito fácil para as milhares de pessoas regressadas, construírem um Portugal Novo, caso lhes fossem dadas oportunidades e acabassem com a lentidão de processos e entraves burocráticos. Contudo, não deixa de defender o 25 de Abril, pois não concordava com a Guerra Colonial e desprezava os "bufos" que destroem a vida de pessoas, por vinganças pessoais, e a troco de dinheiro.Destinatário: Mário SoaresFundo: Mário SoaresDatas: segunda, 25 de abril de 19771 Página(s): 7