António de Barros Machado. 1912-2002; Dora Lustig Machado. 1907-1986
O arquivo reúne documentação relativa à atividade científica e pessoal de António de Barros Machado, com destaque para o período em que dirigiu o Laboratório de Investigação Biológica do Museu do Dundo (1946–1973). Inclui correspondência científica, diários de campo, relatórios de missão, notas manuscritas e uma coleção fotográfica que documenta não só o trabalho biológico, mas também aspetos da vida quotidiana e cultural em Angola.
Integra também documentação sobre a família paterna, nomeadamente sobre o pai, António Machado, e o avô, Bernardino Machado, incluindo correspondência, recortes e manuscritos. Inclui ainda documentos sobre a sua atividade política, com destaque para o envolvimento no MUD e os efeitos da repressão política do Estado Novo, como demonstram os processos da PIDE que o visavam.
A componente familiar é complementada por um núcleo documental relacionado com Dora Lustig, incluindo correspondência pessoal e fotografias, além de documentos que refletem as ligações com a comunidade científica e cultural europeia da época. O arquivo abrange ainda álbuns de viagem, materiais iconográficos e uma biblioteca especializada em História Natural de Angola.
1902 — 2001
António de Barros Machado
Biólogo.
Nasceu em Vila Nova de Famalicão, a 1 de outubro de 1912. Filho de António Luís Machado Guimarães, professor catedrático de Zoologia na Universidade do Porto, e de Sara de Barros Machado, e neto de Bernardino Machado (1851-1944).
Em 1930, iniciou a sua licenciatura em Ciências Biológicas na Universidade do Porto, mas o regime impede-o de prosseguir a carreira académica. Prestes a obter o seu primeiro grau académico e tendo sido nomeado Assistente Extraordinário de Zoologia, acabou por partir para Espanha em 1934, onde se licenciou em Ciências Naturais. O início da Guerra Civil de Espanha obrigou-o a regressar, interrompendo de novo as investigações que ali pudera desenvolver.
Em 1936, concluiu a licenciatura em Ciências Biológicas, começando a trabalhar, um ano depois, como professor do ensino secundário particular, altura em que conhece Dora Lustig, com quem se viria a casar. Ressente a ditadura nazi pelas dificuldades causadas à esposa, de origem judia, e aos sogros. Continuará a desenvolver as suas investigações científicas, enviando a especialistas várias coleções zoológicas, mas sem emprego assegurado e ameaçado pela repressão política que abateu sobre o Movimento de Unidade Democrática (MUD), de que foi aderente, procura de novo sair do país.
A convite da Diamang, realizou a primeira missão à Lunda, de julho a dezembro de 1946, em cujo relatório anuncia o programa que se propõe realizar para o Museu do Dundo, que estava em construção, e, em particular, para o Laboratório de Estudos Biológicos. Contratado pela Diamang, 15 meses mais tarde já cumprira grande parte desse programa, imprimindo um ritmo assinalável aos estudos biológicos, para os quais contribuiram especialistas de todas as áreas, nomeadamente, da fauna e da botânica, ligados ao Museu do Dundo, que passaram pela Lunda, aproveitando as condições oferecidas pela Diamang e a hospitalidade do casal Barros Machado.
A investigação desenvolvida por Barros Machado sobre doenças humanas e animais, valeu-lhe o reconhecimento mundial e esteve na base da atribuição do Prémio Abílio Lopes do Rego, da Academia das Ciências de Lisboa, e do Doutoramento Honoris Causa.
Após o 25 de Abril de 1974, e até 1994, contou com um laboratório posto à sua disposição pela Sociedade de Empreendimentos. Recorreu igualmente aos laboratórios da Estação Agronómica Nacional e aos laboratórios da Fundação Calouste Gulbenkian, em Oeiras, sempre que necessitava de utilizar técnicas para as quais o seu laboratório não estava equipado. De 1994 até 2002, transformou uma arrecadação na cave do prédio que habitava em laboratório, prosseguindo o estudo que se revelou o último motor da sua vida. Partilhou as suas descobertas com o mundo científico em conferências anuais nas universidades portuguesas, em congressos internacionais e comunicando os seus trabalhos a especialistas.
Morreu em Lisboa, a 30 de maio de 2002.
Dora Lustig
Nasceu em Berlim, a 6 de junho de 1907. Filha de Rose Marie Lustig e Franz Lustig. Formou-se como professora de Ginástica. Em 1938, chegou à cidade do Porto juntamente com os pais, onde conheceu Ilse e Arménio Losa, que a apresentaram a Barros Machado, com quem viria a casar. A recusa em colaborar como informante da PIDE fez com que os seus pais tivessem de partir para Londres, aí fixando residência.
Em 1946, seguiu a bordo do paquete Colonial para a Lunda, na companhia de António de Barros Machado, onde se estabeleceu, coadjuvando-o no Laboratório de Biologia do Museu do Dundo, como assistente de naturalista e no secretariado de ligação com cientistas e institutos científicos, na organização de uma biblioteca sobre a História Natural de Angola, e na vigilância de um pequeno zoo.
Dora Lustig regressou a Portugal em 1973, quando Barros Machado cessou funções como diretor do Laboratório de Biologia.
Morreu em Lisboa, em 1986.
Arquivos FMSMB: Bernardino Machado: documentação alusiva à família paterna de Barros Machado, nomeadamente correspondência; Manuel Mendes: conjunto de cartas dirigidas a Manuel Mendes por Dora Lustig e António de Barros Machado.
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