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Centenário da Revolta de Manufahi
28 de Novembro de 2012 [data de publicação original]
Same, distrito de Manufahi, Timor-Leste
No dia 28 de Novembro, dia da Proclamação unilateral da Independência de Timor-Leste, em 1975, realizaram-se em Same, distrito de Manufahi, as comemorações do Centenário da Revolta dirigida por Dom Boaventura da Costa Souto Maior.
Conheça uma breve cronologia desses acontecimentos


Imagens da exposição organizada pela Secretaria de Estado da Cultura de Timor-Leste no âmbito das comemorações do Centenário da Revolta de Manufahi, em que foi inaugurada a estátua de Dom Boaventura. A Fundação Mário Soares deu a sua colaboração na realização da cronologia utilizada e no tratamento de algumas imagens e mapas.




BREVE CRONOLOGIA (1847-1913)

ANTECEDENTES

1847:
A administração portuguesa de Timor lança operações militares contra os reinos de Sama-Sarau e Faturó, que se repetirão no ano seguinte.

Abril de 1848:
Início das negociações fronteiriças luso-holandesas em Díli.

1848/1849:
Guerra de Ermera.

1851:
O governador Lopes de Lima consegue dominar s reinos de Faturó e Sarau.

1851:
As tropas portugueses são derrotados em Suai.

1851:
Novas negociações fronteiriças com a Holanda. Cedência dos territórios nas ilhas exteriores (Flores, Solor, etc.).
Setembro de 1852: Destituído o governador Lopes de Lima e Timor passa a depender de Macau.

6 de Outubro de 1854:
Primeiro tratado luso-holandês sobre a divisão da Ilha de Timor, que será rejeitado pelo Parlamento da Holanda.

20 de Abril de 1859:
Assinado em Lisboa um novo tratado de delimitação das fronteiras entre Timor Ocidental (Holanda) e Timor Oriental (Portugal).

21 de Março-30 de Setembro de 1861:
Revolta de Ulmera e de Lacló.

Abril de 1861:
Reocupação portuguesa do enclave holandês de Maubara.

Junho de 1863:
Revolta de Laga, dirigida por Daholo (Gabriel Correia).

30 de Maio de 1864:
Motim da guarnição de Díli.

24 de Agosto de 1866:
Incêndio parcial da cidade de Díli.

Novembro de 1866:
Timor passa, de novo, a depender de Macau (durante 30 anos).

Setembro/Novembro de 1867:
Operações militares portuguesas contra os reinos de Failacor, Maubara e Leimeã.

Junho/Julho de 1868 a 27 de Janeiro de 1870:
Grande revolta de Cová, Cotubaba, Balibó e Sanir.

7 de Novembro de 1868:
Derrota portuguesa em Cotubaba.

26-27 de Outubro de 1869:
Recuo português em Cová, que só será reocupada em 13 de Março do ano seguinte.

Outubro de 1878-Junho de 1879:
Revolta de Laleia, dirigida por D. Manuel Salvador dos Remédios.

19 de Fevereiro de 1879:
A administração portuguesa recebe reforços de soldados vindos das colónias africanas.

1880:
As exportações de café atingem 2.146 toneladas.

1886:
O governador Lacerda Maia inicia a implantação administrativa portuguesa para lá da costa norte.

14-26 de Junho de 1886:
Novas operações militares portuguesas em Maubara.

3 de Março de 1887:
O governador Lacerda Maia é morto por moradores de Dili.

6-27 de Novembro de 1889:
Operações no reino de Lautem.

Agosto-Outubro de 1891:
Missão de prospeção mineira no centro da ilha e na contracosta meridional (Manufahi, Suai).

25 de Agosto-23 de Outubro de 1891:
Incursão de tropas portuguesas em direção ao Sudoeste, Bobonaro.

8 de Dezembro de 1891:
Navios britânicos estabelecem uma ligação marítima direta entre Macau e Timor.

11 de Agosto-16 de Outubro de 1892:
Operações militares na zona do Matebian e Kelicai.

25 de Maio-2 de Julho de 1893:
Grande revolta dos produtores de café de Maubara, dirigida por D. Maria Maubute.

11 de Maio de 1894:
Chegada do governador José Celestino da Silva, que se manterá no posto até 1908.

Outubro/Novembro de 1894:
Celestino da Silva manda atacar os Lamaquitos.

Março/Maio de 1895:
Segunda campanha militar, nas regiões de Obulo, Marobo, Atabaé e Balibó.

Agosto/Outubro de 1895:
Campanha militar contra o rei de Manufahi, D. Duarte da Costa Souto Maior.

8 de Setembro-28 de Outubro de 1895:
Vitória das tropas portuguesas em Manufahi, depois do aniquilamento da coluna do capitão Eduardo Câmara.

5 de Julho-25 de Outubro de 1896:
O governador Celestino da Silva lança uma grande campanha militar de vingança contra os insubmissos (Loiciba, Cotubaba, Sanir, Cová, Deribate, Fatomean, Dacoló). D. Alexandre de Cotubaba é destituído e encarcerado e o respectivo reino é desmembrado.

14-18 de Agosto de 1896:
Cerco de Dato-Talo (Sanir).

11 de Setembro-5 de Outubro de 1896:
Os chefes de Deribate recusam-se a pagar multas impostas pelo governador, que manda queimar as culturas, excepto as de café, enquanto as populações resistem no bosque de Talo e, mais tarde, não aceitando a rendição, entrincheiram-se em subterrâneos onde resistem, morrendo de ferimentos e de sede.

Finais de Setembro de 1896:
O governador português recebe importantes reforços de soldados enviados da colónia de Moçambique.

20-23 de Outubro de 1896:
Reocupação pelas tropas portuguesas do Sudoeste da «grande fronteira».

Outubro de 1896:
Timor torna-se um distrito autónomo, deixando de depender de Macau.

22 de Setembro-2 de Outubro de 1897:
Nova campanha do governador Celestino da Silva contra os Lamaquitos.

Agosto-Outubro de 1898:
Demarcação luso-holandesa da «grande fronteira», muito contestada.

Fevereiro-Março de 1899:
Desacordos sobre a demarcação do enclave de Ocussi-Ambeno.

13 de Junho-7 de Agosto de 1899:
Sexta campanha militar da administração portuguesa contra Atabaé, Leimeã, Atsabe, Cailaco e Baboi. Deci Lelo e Mai-Bere dirigema resistência.

17 de Julho de 1899:
O português Francisco Duarte, cognominado "o Arbíru", morre em combate na zona de Bui-Cari.

6 de Janeiro de 1900:
Publicação em Díli do primeiro número do Boletim Official de Timor.

14 de Julho-15 de Agosto de 1900:
Oitava campanha militar do governador Celestino da Silva: operações em redor de Díli e em direção ao Norte de Manufai.

11 de Setembro-11 de Dezembro de 1900:
D. Duarte da Costa Souto Maior, de Manufahi, continua a resistir, recusando comparecer em Dili, onde temia ser morto pelo governador.

6-21 de Novembro de 1900:
As tropas coloniais tentam cercar Leo Laco.

17 de Agosto-9 de Outubro de 1902:
Décima terceira campanha militar, na parte oriental da ilha.

Março de 1904:
Nova expedição militar contra Quelicai e o Matebian.

8-19 de Agosto de 1904:
Retomadas as operações militares em Lamaquito.

1 de Outubro de 1904:
Convenção luso-holandesa de Haia, confirmando a intenção de permutar os enclaves de Maucatar e Noimuti e alguns terrenos na «grande fronteira». Persistência do desacordo sobre o limite oriental de Ocussi-Ambeno.

Outubro-Novembro de 1904:
Continuam as campanhas militares a Sudoeste da «grande fronteira».

9 de Março-4 de Abril de 1905:
Guerra de Funar.

Julho de 1905:
Operações de ocupação na ilha de Ataúro.

1907:
Vigésima primeira expedição militar, desta vez em Funar.

7-18 de Maio de 1907:
Nova expedição a Norte de Manufai, destacando-se a resistência de Kei-Sera e Mau-Clau.

5 de Outubro de 1908:
Partida do governador José Celestino da Silva.

29 de Outubro de 1908:
Ratificação da Convenção de Haia de divisão de Timor entre a Holanda e Portugal.

Finais de 1908/inícios de 1909:
Operações militares a Leste de Lautem.

1909:
Prospecções petrolíferas em Timor, supressão do imposto da finta e sua substituição pelo imposto de capitação.

Junho-Agosto de 1909:
fracasso na demarcação da fronteira oriental de Ocussi-Ambeno.

Fevereiro de 1910:
O distrito autónomo de Timor ganha o estatuto de província.



A GRANDE REVOLTA

30 de Outubro de 1910:
Adesão da administração portuguesa de Timor ao regime republicano, implantado em Lisboa a 5 de Outubro.

Dezembro de 1910:
Os elementos da Companhia de Jesus e outros religiosos são expulsos de Timor.

22 de Fevereiro de 1911:
Chegada do novo governador, Filomeno da Câmara Melo Cabral.

Maio/Junho de 1911:
Ocupação do enclave de Noimuti pelos portugueses.

18 de Julho de 1911:
Sangrento confronto luso-holandês em Lakmaras.

Outubro de 1911:
Operações militares portuguesas contra os fronteiriços no Sudoeste.

Novembro/Dezembro de 1911:
Tumultos populares a Leste do enclave de Maucatar.

24 de Dezembro de 1911:
O chefe de posto de Same, Luiz Álvares da Silva, e diversos outros soldados são mortos por moradores de Manufahi – o que representa o início da Grande Revolta, dirigida por D. Boaventura da Costa Souto Maior, que entretanto conseguira estabelecer aliança com diversos outros liurais.

28 de Dezembro de 1911:
O posto de Suro é atacado, provocando o pânico dos cafeicultores europeus do Oeste, abrindo assim o caminho para Bobonaro. Seguem-se combates em diversas localidades, ao mesmo tempo que o governador tenta mobilizar recursos para suster o alastramento da revolta, designadamente entre os moradores de Baucau e de Manatuto.

4 de Janeiro de 1912:
O governador Filomeno da Câmara suspende as garantias em todo o território, “atendendo às circunstâncias anormais em que se encontra a Colónia”.

5 de Janeiro de 1912:
Início das operações dirigidas pelo governador Filomeno da Câmara, com início em Aileu.

8 de Janeiro de 1912:
Em Aituto, os revoltosos põem em retirada a coluna militar do governador, que é obrigado a abandonar igualmente Maubisse, regressando a Aileu. Entretanto, em Dili, as mulheres e filhos dos europeus refugiam-se num vapor.

Janeiro de 1912:
Continuam combates em toda a região

6 de Fevereiro de 1912:
Chega a Dili a canhoneira Pátria, vinda de Macau e, nos dias 11 e 15, chegam dois navios com reforços de tropas de Goa e de Moçambique.

Fevereiro de 1912:
Combates nas áreas de Manatuto, sendo cortadas as comunicações com a missão de Soibada.

22 de Fevereiro de 1912:
Tropas do governador reocupam Maubisse e, dias depois, Lacvlubar e Soibada.

Março de 1912:
Esmagada a rebelião oriental, persiste a resistência a ocidente.

22 de Março de 1912:
Início de uma sublevação no enclave de Ambeno, dirigida pelo liurai D. João da Cruz Hornai – sendo reconquistada Ponte Macassar no final do mês, embora a sublevação dure mais de um ano.

29 de Abril de 1912:
Chegada de novos reforços moçambicanos.

Abril/Maio de 1912:
Prosseguem violentos combates no Norte de Manufahi. O governador, seguro dos reforços recebidos, regressa a Dili a 25 de Abril, promovendo novo aumento de impostos. Entretanto, milhares de refugiados tentam alcançar o Timor holandês.

27 de Maio de 1912:
As tropas do governador, dotadas de artilharia, conseguem dominar o Cablaque de Aituto (no Norte de Manufai), onde estavam entrincheiradas cerca de 8.000 pessoas. A canhoneira Pátria, comandada por Gago Coutinho, bombardeia Leo Laco.

11 de Junho-21 de Julho de 1912:
As tropas sob comando português cercam durante quarenta e um dias a colina fortificada de Riak, onde virão a ser aprisionados cerca de 4.500 timorenses. Os resistentes, que apenas dispunham de 350 espingardas e de zagaias e espadas, tiveram 59 mortos, enquanto a tropa atacante, que gastou mais de 30.000 cartuchos e fez cerca de 600 disparos de artilharia, teve 40 mortos e 90 feridos.

11 de Julho de 1912:
Chegada do terceiro contingente moçambicano, que foi de imediato reforçar o cerco a Riak.

26 de Julho-11 de Agosto de 1912:
As tropas do governador investem contra Leo Laco, onde se encontrava entrincheirado D. Boaventura da Costa Souto Maior. O dispositivo é constituído por 30 oficiais, 580 soldados e sargentos, 707 moradores e cerca de 8.000 auxiliares. Do lado dos revoltosos, dispondo de escasso armamento, erguem-se as tranqueiras e as defesas em bambú, que os sitiantes tentam minar, enquanto temem a fuga dos revoltosos e a sublevação dos seus auxiliares timorenses. Na noite do dia 10 de Agosto, os revoltosos forçam o bloqueio a leste e a ocidente, conseguindo D. Boaventura escapar com número incerto de homens. Nos combates travados em redor de Leo Laco, terão sido mortos cerca de 3.000 timorenses, não se conhecendo o número de cabeças cortadas pelas tropas governamentais quando alcançaram o pico da montanha, sendo certo que foram aprisionadas mais de 12.000 pessoas.

17 de Agosto de 1912:
«Festa das cabeças cortadas», em Díli, presidida pelo governador.

23 de Agosto de 1912:
Confisco de terras aos rebeldes de Manufai, transformadas em plantações da Administração.

Agosto/Setembro de 1912:
As tropas governamentais procuram, em vão, capturar D. Boaventura, que terá conseguido escapar para os pântanos junto à costa.

31 de Dezembro de 1912:
Em relatório do novo comandante militar de Same, Francisco Pedro Curado, publicado no Boletim Oficial do Governo da Província de Timor de 11 de Janeiro de 1913, dá-se conta do que sucedeu após a tomada de Leo Laco pelas tropas governamentais: “Tendo-se escapado de Leo Laco, espalhando-se em grupos mais ou menos numerosos, pelas regiões mais cobertas e menos conhecidas, especialmente da costa marítima, milhares de pessoas, entre elas os chefes a quem se atribui mais culpabilidade na rebelião e com esses chefes muitos dos seus homens de guerra competentemente armados e municiados” – tendo sido reduzidos “à obediência pela ação combinada da persuasão e do emprego das armas – entrando o comando na sua plena normalidade política nos princípios do corrente mês” (Dezembro de 1912).
Não se conhece ainda o que sucedeu a D. Boaventura, sendo certo que o relatório citado refere o seu regresso a Same:
“Pela sua importância mandei, pela sua ordem, também apresentar na Secretaria do Governo: D. Vicente da Costa Souto Maior, irmão do régulo de Manufahi (…); D. Boaventura da Costa Souto Maior, régulo de Manufahi; João, primo e cunhado do régulo, major do reino.”

NOTA:
Para a elaboração desta cronologia, foram utilizados, designadamente, as seguintes publicações:
- Boletim Oficial do Governo da Província de Timor
- René Pélissier, “Timor em Guerra – a Conquista Portuguesa (1847-1913)”
- Jaime do Inso, Timor 1912
- Filomeno da Câmara, Diário de Campanha Timor 1912 (AHU)